sábado, 21 de novembro de 2020

Revisitando meus passos

A vida passa e a gente começa a se resumir ao nosso currículo profissional. Contamos uma história na qual parece que só houve de notável aquilo que pode ser usado em uma entrevista de emprego. Mas não é assim.

Recentemente, fiz 40 anos. Sim, quarentei na quarentena. E esse frio na barriga e a solteirice autoimposta há 3 anos, desde o término de uma relação abusiva, me fizeram ver que o tempo está voando. E que eu, que amo meu trabalho, no leito de morte vou pensar no que deixei de viver. E no que vivi.

Não posso reclamar de monotonia. Há muito tempo penso em registrar, pra organizar sobretudo em minha cabeça, passos da minha jornada. Dores, amores, feridas, sorrisos. Minha realidade surrealista.

Mais uma vez, vou tentar começar. Sem promessa, porque muita coisa dói. Mas vou tentar.

segunda-feira, 2 de março de 2020

Coronavírus e a hipocrisia parental

Já tem muita gente falando do despautério que é dar ao COVID-19 o título de cavaleiro do apocalipse com dengue, sarampo, feminicídio e tantas outras formas de morrer disputando para levar nossa alma pro além. Quero narrar outro causo.

Conheço um pai (dá pra chamar de pai?) que tem sistematicamente postado alardes, avisos, terrores sobre a doença. Sobre o perigo que nos aguarda na esquina e as mais escabrosas teorias da conspiração envolvendo a dominação global e a epidemia.

O detalhe é que sei, de fonte segura, que esse mesmo que se preocupa com o futuro da humanidade cancelou o plano de saúde dos filhos. Pra completar, mesmo com decisão judicial, não repassa o valor para que a mãe possa manter um seguro para o caso de necessidade de atendimento para aqueles que trouxe ao mundo.

Fazer furdunço no Facebook é moleza. Quero ver pagar a pensão. Ou, mais raro ainda, limpar a meleca e passar a noite em vigília medindo uma eventual febre dos rebentos que abandonou.


O roteiro de novela

A vida real não tem compromisso com a verossimilhança. A frase é mais ou menos essa, mas o que vale é o raciocínio, do sempre brilhante professor Wilson Gomes.

Reativei esse blog para contar as crônicas, causos, vivências de amigos (e algumas minhas) que de tão surreais parecem ter saído da cabeça de um escritor que tomou umas pancadas. Se estivessem em uma obra ficcional, os críticos seriam severos: a obra é uma farsa.

Arthur Rimbaud já dizia que a vida é uma farsa a ser levada por todos. Na minha inocência, achava que era só uma frase bonita. Mas só há lógica na ficção.

Por isso, vou registrar e narrar (com umas pitadas de invenção pra ajudar a preservar a identidade das personagens) os fatos mais insanos, mais hollywoodianos, mais farsescos, ridículos, absurdos, non-sente, bizarros, cretinos que me contam por aí.

Como repórter e ouvidora de histórias, vou tomar o papel novamente de contadora.

Faço sem a expectativa de alguém me ler. Faço para tirar de mim esse emaranhado de vidas.

Ao leitor eventual, não espere método, lógica ou técnica. Vai ser como for.

Em tempo: não pedi autorização de ninguém. Se você é meu amigo e sentir-se exposto, venha falar comigo. A ideia não é essa.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Não há nada como o tempo para passar

Ai, Vininha. Será que o tempo faz mesmo as coisas passarem? Ou será que as nódoas se tornam perenes e nunca mais poderão ser removidas? Quanto tempo, nada passa. Que nada. Passo eu.

sábado, 23 de abril de 2011

Quando eu ganhar uns milhões

Nem joias, nem carros, nem luxo. Quando eu ganhar uns milhões, vou me presentear de reencontros. Vou reunir a grande lista de pessoas queridas e gastar a minha fortuna jogando conversa fora, rindo e ouvindo. Terei por perto aqueles que a vida foi levando para longe e aqueles de quem o destino me fez distante. Será uma volta ao mundo com pousos de sorrisos e abraços. E quando eu tiver gasto cada centavo, serei a pessoa mais rica do mundo, com o coração cheio da fortuna que ninguém pode saquear.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Inbloglio: Como avaliamos o julgamento alheio

Inbloglio: Como avaliamos o julgamento alheio: "A neurocientista Rebeca Saxe dá um show ao explicar como as pesquisas demonstram a forma como desenvolvemos a capacidade de interpretar - e ..."

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Extra! Extra! Salário de jornalista parece de jornaleiro


Republico, abaixo, um texto meu de 2007. Infelizmente, permanece atual. Para fechar a semana do Dia do Jornalista.


Quarto Poder, símbolo da liberdade de informação, fiscalizador dos poderes públicos e privados. Profissionais que têm acesso a qualquer pessoa no top 10 das listas de ricos, famosos e poderosos. Formadores e deformadores da opinião pública. Esta é a imagem idealizada que o senso comum tem dos jornalistas, cheia de glamour. Mas a realidade da estúpida maioria dos trabalhadores de televisões, jornais, rádios e revistas não chega nem perto desse mundo da Fantasia.

Pra quem não é da área, vou trocar em miúdos usando o exemplo de dois dos jornalistas mais importantes do mundo: Superman e Homem-Aranha. Na redação do Planeta Diário, provavelmente a mais famosa da ficção pop, há aquele glamour. Claro que há a sede pelo furo, pela notícia em primeira mão, mas Louis Lane e Clark Kent sempre conseguem um prazo extra, verba para matérias investigativas e independência para trabalhar – em dupla! Mais: moram bem, estão sempre elegantemente vestidos, podem pegar táxi à vontade e nunca reclamam de maus salários. A folga é tanta que Superman sempre consegue um tempinho pra dar uma escapada e salvar o mundo dentro do horário de trabalho.

O oposto disso é o ambiente no Clarim Diário, muito mais próximo da chamada “vida real”. Peter Parker se lasca, dá tudo de si pra conseguir as melhores fotos do Homem-Aranha (afinal, ninguém sabe que pra ele é fácil, né?), entrega material pra lá de exclusivo e o que recebe em troca? Baforadas de charuto, mau humor do editor J. J. Jameson e não mais de vinte dólares pelas imagens.

Saindo do mundo dos quadrinhos e voltando à terra de todos os santos, nossa realidade é seguinte. O piso salarial de jornalistas e radialistas é menor que de motoristas de ônibus, operários qualificados da construção civil, pedreiros e até dos ganhos de alguns bóias-frias.

Não acreditou? No jornal Tribuna da Bahia há quem ganhe R$ 681. Os salários do Correio da Bahia começam em R$ 1.000 e no jornal A Tarde, que luxo, R$ 1.320,28. Já o piso para radialistas é de R$ 750. (nota da blogueira - os valores de 2007 pra cá não mudaram muito - A Tarde R$ 1.496,25, Correio R$ 1.450,00, Tribuna R$ 1.250,00 e dos radialistas R$ 930,00 - dados dos sites dos sindicatos)

Pra comparar, a base para motoristas de ônibus é R$ 1.021, do operário qualificado R$ 718 e do pedreiro R$ 682. E o bóia-fria pode levar R$ 800 pra casa, depois de um duro danado.

Antes que alguém venha berrar que estamos pregando a segregação social ou falar da insalubridade ou periculosidade de algumas das profissões citadas é bom lembrar o que faz um jornalista. Sabendo que todo profissional tem muito valor para a sociedade, os citados neste artigo ou não, vamos falar da nossa praia. O trabalho com a informação que vai chegar a milhões de pessoas é de extrema responsabilidade e exige, pelo menos 17 anos de estudo (até o diploma de graduação). Além disso, a Federação Internacional de Jornalistas afirma que 150 profissionais de mídia foram mortos enquanto trabalhavam em 2005. Nos quatro anos de ocupação no Iraque, por exemplo, são 200 mortos.

Se você acha que Bagdá não é aqui, é bom lembrar que a repórter da Band Nadja Haddad recebeu uma bala de fuzil no abdome enquanto trabalhava no Rio. Tim Lopes foi torturado e morto e Guilherme Portanova foi seqüestrado pelo PCC em São Paulo. Repórteres do Rio hoje saem para trabalhar com colete à prova de balas e, na Bahia, coronel matar profissional de comunicação no interior é cotidiano e banal.

Há também nas redações muitos estagiários fazendo papel de profissional – praga, aliás, que infesta as mais diversas categorias. Quando consegue ser efetivado, dificilmente um repórter de Salvador ganha mais de R$ 1.500 por mês. Mesmo os mais experientes. Os que entram na exceção – e realmente ganham perto daquilo que se imagina por aí que é pago a todos que põe a carinha, bonita ou não, na TV ou o nominho no periódico –, são contratados como Pessoa Jurídica, sem direito trabalhista algum.

Sem querer justificar atitudes dos colegas que acham que ética é uma palavra que só deve ser usada como contraponto naquelas matérias de meter pau em político corrupto, a promiscuidade é grande. São repórteres de esporte donos de passes de atleta, jornalistas da editoria de política que fazem assessoria a deputado no turno oposto ou aqueles que recebem jabá aberto, grana mesmo pra usar a “objetividade jornalística” a favor de alguém. Fato é que, entre os honestos, é preciso procurar mais de um trabalho ou fazer “frila”, trabalhinho free-lance pra não ficar no vermelho no fim do mês.

Profissionais de nível superior e com status social de verdadeiros formadores de opinião, os jornalistas tentam com todas as forças manter a pose, ou pelo menos a dignidade. Convivendo com a crema de la crema é vital sustentar a imagem de que faz parte do extrato social, do topo da pirâmide. Aí entra o lado queixão do jornalista. Sempre em busca do convite, da boca-livre e do brinde. Ou cair pra carteirada mesmo, que cada vez cola menos. Os poderosos já começaram a ver que jornalistas não são tão poderosos assim. São de uma sub-classe.

Se você fica desconfiado de um dentista, médico ou advogado que cobra barato demais pela lógica de que “quando a esmola é demais, o santo desconfia”, porque então acredita piamente nas informações contadas por quem é sub-remunerado? Sei não...